A sinceridade, me dizem. A honestidade. Seja verdadeira, isso a tornará interessante. Truth will set you free.
Well, I don’t wanna be free.
A vida é muito melhor inventando e mentindo.
Nada pode me salvar, nada me tornará uma pessoa feliz, nada vai fazer ficar tudo bem. A verdade menos ainda.
Eu não vou me confessar, me expor, me expressar, porra nenhuma desse monte de besteiras que falam que “faz bem”. Nada “faz bem”. Tudo faz algo, produz algum efeito, é isso.
A verdade não é um valor humano; a verdade sequer existe.
Ele não tem que saber a verdade sobre mim, tudo que me aconteceu, o que eu sinto por ele, o que penso dele e das relações. Inventaram que isso, tudo isso, importava por algum motivo – provavelmente para salvar famílias, casamentos, noivados, namoros e até mesmo relações abertas… Essas coisas todas que não precisavam necessariamente existir.
Eu não quero ser sincera. Porque por um lado, só quero ele na minha cama, mas, por outro, não existe de fato um eu meu, daqueles que dizem que quereria algo verdadeiramente, no fundo.
Descobrir o que eu realmente quero, ou o que o outro realmente quer é uma bela duma piada. Inventaram “eu”, inventaram “outro”, inventaram “realmente”, e aí então passamos a vida inteira tentando colocar esses conceitinhos em prática.
Não vai ficar tudo bem, a gente não vai se entender, ninguém vai ser sincero e ninguém vai vir a ser feliz. E mais: não há nenhum valor nobre e humanístico em tentar chegar lá.
Fique sabendo. No fundo, no fundo… não tem nada.






a leveza e o peso (#2)
Já aviso: um post muito confuso e pretensioso.
I. Frio, música, leveza… a insustentável leveza do ser. Você no meu pensamento. Ela na minha frente. Amanhã, o inverso. Hoje, dorzinha no coração. Saudadezinha, mesmo. Frio me lembra chocolate, me lembra filme, me lembra sofá, me lembra abraço.
Refiz o percurso daquele dia inspirador. Lá é um lugar tão bonito. Meio caótico, é verdade. Mas contraditoriamente harmonioso. Exatamente como eu.
Ontem eu ri dos meus dramas pateticamente egocêntricos e dormi bem. O dia de hoje foi pleno. Frio, música, leveza…
II. É raro o céu não estar azul e eu me sentir bem. A dorzinha no coração dói de um jeito bom, assim como meus músculos quando se recuperam de um dia de esforço intenso. Meu sentimento encontra-se na linha tênue (por vezes inexistente) que difere a dor do prazer. Quando a gente não sabe se suspira, geme ou grita. É difícil saber o que fazer. Eu nunca sei. É esse sentimento, afinal de contas, o peso que sustenta a minha leveza.
A leveza é fresca e tem gosto de açúcar. É muito doce e se dissolve. É a distância e o tempo.
O peso é um laço de fita macio que aperta um pouco a garganta, um pouco o coração. Sufocando-me e cortando-me suavemente. São as lembranças. A combinação toda é um pouco desconfortável. No entanto, é extasiante.
Eu reagia, inventando futuras lembranças e esquecendo que logo elas seriam novamente o peso. Não o faço mais.
Agora eu apenas respiro fundo, com uma dificuldade prazerosa. O pensamento esquece de pensar e eu só sinto o presente.
“A leveza e o peso”: escrito no começo de 2005. Não acho que escreveria as mesmas coisas sobre o tema hoje em dia, já não pensava nesse livro há muito tempo. Eis que ele ressurge com intensidade, em meio a uma calmaria –que, de fato, me deixava sonolenta, mas que também se materializava numa tranqüilidade que não tinha há tempos… Desejei com tanta força que ela acabasse, crendo que é impossível uma vida tranqüila, pelo menos pra mim, nascida sob um sol leonino na casa das trevas: eu, que sempre vivi de queimar e incendiar em meio ao breu até que tudo virasse cinzas…
Fiz com que a paz se interrompesse e aí então tive que perguntar à menina de 17 anos como ela sobrevivia a toda essa turbulência. Ela havia descoberto o existencialismo, leu Milan Kundera e decidiu que amava o peso ao mesmo tempo que desejava a leveza. Ela me respondeu com esse texto, escrito num dia do qual me lembro muito bem. Li com nostalgia, e à primeira vista pensei que aqueles mesmos vícios e desejos continuam pulsantes dentro de mim, pesando, e que talvez eu devesse mudar para ser mais feliz, mais leve, e ter relações mais plenas. Só que hoje tenho um grande problema com dualidades.
A busca pela felicidade é algo destrutivo, é a infelicidade em si; ah, o quanto era platônico acreditar que a leveza e o peso existem em essência e que minhas palavras ou atos apenas os invocavam! Era bem assim que eu deixava que certos conceitos opostos criassem minha própria depressão desde os 11 anos: essa doença que alguns inventaram, diagnosticando em seguida uma epidemia de tristeza patológica na população humana…