a leveza e o peso (#2)

Já aviso: um post muito confuso e pretensioso.

I. Frio, música, leveza… a insustentável leveza do ser. Você no meu pensamento. Ela na minha frente. Amanhã, o inverso. Hoje, dorzinha no coração. Saudadezinha, mesmo. Frio me lembra chocolate, me lembra filme, me lembra sofá, me lembra abraço.
Refiz o percurso daquele dia inspirador. Lá é um lugar tão bonito. Meio caótico, é verdade. Mas contraditoriamente harmonioso. Exatamente como eu.
Ontem eu ri dos meus dramas pateticamente egocêntricos e dormi bem. O dia de hoje foi pleno. Frio, música, leveza…
II. É raro o céu não estar azul e eu me sentir bem. A dorzinha no coração dói de um jeito bom, assim como meus músculos quando se recuperam de um dia de esforço intenso. Meu sentimento encontra-se na linha tênue (por vezes inexistente) que difere a dor do prazer. Quando a gente não sabe se suspira, geme ou grita. É difícil saber o que fazer. Eu nunca sei. É esse sentimento, afinal de contas, o peso que sustenta a minha leveza.

A leveza é fresca e tem gosto de açúcar. É muito doce e se dissolve. É a distância e o tempo.
O peso é um laço de fita macio que aperta um pouco a garganta, um pouco o coração. Sufocando-me e cortando-me suavemente. São as lembranças. A combinação toda é um pouco desconfortável. No entanto, é extasiante.
Eu reagia, inventando futuras lembranças e esquecendo que logo elas seriam novamente o peso. Não o faço mais.
Agora eu apenas respiro fundo, com uma dificuldade prazerosa. O pensamento esquece de pensar e eu só sinto o presente.

“A leveza e o peso”: escrito no começo de 2005. Não acho que escreveria as mesmas coisas sobre o tema hoje em dia, já não pensava nesse livro há muito tempo. Eis que ele ressurge com intensidade, em meio a uma calmaria –que, de fato, me deixava sonolenta, mas que também se materializava numa tranqüilidade que não tinha há tempos… Desejei com tanta força que ela acabasse, crendo que é impossível uma vida tranqüila, pelo menos pra mim, nascida sob um sol leonino na casa das trevas: eu, que sempre vivi de queimar e incendiar em meio ao breu até que tudo virasse cinzas…
Fiz com que a paz se interrompesse e aí então tive que perguntar à menina de 17 anos como ela sobrevivia a toda essa turbulência. Ela havia descoberto o existencialismo, leu Milan Kundera e decidiu que amava o peso ao mesmo tempo que desejava a leveza. Ela me respondeu com esse texto, escrito num dia do qual me lembro muito bem. Li com nostalgia, e à primeira vista pensei que aqueles mesmos vícios e desejos continuam pulsantes dentro de mim, pesando, e que talvez eu devesse mudar para ser mais feliz, mais leve, e ter relações mais plenas. Só que hoje tenho um grande problema com dualidades.
A busca pela felicidade é algo destrutivo, é a infelicidade em si; ah, o quanto era platônico acreditar que a leveza e o peso existem em essência e que minhas palavras ou atos apenas os invocavam! Era bem assim que eu deixava que certos conceitos opostos criassem minha própria depressão desde os 11 anos: essa doença que alguns inventaram, diagnosticando em seguida uma epidemia de tristeza patológica na população humana…

My formula for greatness in a human being is amor fati: that one wants nothing to be different, not forward, not backward, not in all eternity. Not merely bear what is necessary, still less conceal it—all idealism is mendaciousness in the face of what is necessary—but love it.”

I want to learn more and more to see as beautiful what is necessary in things; then I shall be one of those who make things beautiful. Amor fati: let that be my love henceforth! I do not want to wage war against what is ugly. I do not want to accuse; I do not even want to accuse those who accuse. Looking away shall be my only negation. And all in all and on the whole: some day I wish to be only a Yes-sayer.”

(Nietzsche)

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No fundo, no fundo…

A sinceridade, me dizem. A honestidade. Seja verdadeira, isso a tornará interessante. Truth will set you free.
Well, I don’t wanna be free.

A vida é muito melhor inventando e mentindo.

Nada pode me salvar, nada me tornará uma pessoa feliz, nada vai fazer ficar tudo bem. A verdade menos ainda.
Eu não vou me confessar, me expor, me expressar, porra nenhuma desse monte de besteiras que falam que “faz bem”. Nada “faz bem”. Tudo faz algo, produz algum efeito, é isso.

A verdade não é um valor humano; a verdade sequer existe.

Ele não tem que saber a verdade sobre mim, tudo que me aconteceu, o que eu sinto por ele, o que penso dele e das relações. Inventaram que isso, tudo isso, importava por algum motivo – provavelmente para salvar famílias, casamentos, noivados, namoros e até mesmo relações abertas… Essas coisas todas que não precisavam necessariamente existir.

Eu não quero ser sincera. Porque por um lado, só quero ele na minha cama, mas, por outro, não existe de fato um eu meu, daqueles que dizem que quereria algo verdadeiramente, no fundo.
Descobrir o que eu realmente quero, ou o que o outro realmente quer é uma bela duma piada. Inventaram “eu”, inventaram “outro”, inventaram “realmente”, e aí então passamos a vida inteira tentando colocar esses conceitinhos em prática.

Não vai ficar tudo bem, a gente não vai se entender, ninguém vai ser sincero e ninguém vai vir a ser feliz. E mais: não há nenhum valor nobre e humanístico em tentar chegar lá.

Fique sabendo. No fundo, no fundo… não tem nada.

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Co-var-de

Aqui estou eu. De novo. Nesse lugar tão comum e ao mesmo tempo tão assustador. Olhando uma porta. Sem saber se é melhor bater, ver se abre sem chave ou então ficar em silêncio, esperar abrirem por acaso. Não é a primeira vez, não é a segunda vez — hell, não é a décima nem vigésima vez — que eu fico parada olhando pra uma porta sem saber o que fazer ; e pior ainda: sem coragem de ir embora.
Eu aprendi a gostar de ficar em casa. Eu odiava. Mas agora vejo o quanto é seguro e confortável. Tem tudo que eu preciso. Até mesmo coisas novas: é só dar uma voltinha pelo quarteirão, dá pra trazer sempre algo novo. Eu aprendi a gostar da minha casa. É boa o suficiente pra mim. Não preciso sair.
Então por que, por que raios estou aqui de novo? Sim, eu caminhei até aqui com os meus próprios pés e, Deus, por algum motivo me pareceu uma boa idéia dar três batidas na porta. Eu sabia que se pensasse muito eu não ia bater, então eu pensei pouco. Pouco para os meus padrões, a verdade é que no caminho pra vir até aqui eu andei de um lado para o outro no meio da rua, completamente indecisa e procurando por sinais. Até que o sinal surgiu. E aí eu fui, não pouco hesitante, mas fui, e aqui estou. E dei três batidas. Comum demais, eu sei, qualquer um daria três batidas, podem até pensar que é o correio ou algum vendedor chato. Mas é melhor ser tradicional nessas horas de insegurança. Três. E bati só porque houve o sinal, só por isso.
Nem sei porque tanto nervosismo. Já estive nessa situação tantas vezes. Nas últimas não deu muito certo, é verdade. Tem por aí gente esnobe o bastante pra ficar te olhando pelo olho mágico da porta e simplesmente não atender. São sádicos… E aí tem os que atendem, conversam sobre o que tem que conversar, pegam o que você trouxe pra eles, respondem o que você perguntou e pronto, adeus. Não chamam pra entrar, pra tomar água, chá, café, nada. Uma indireta do tipo “nossa, que calor” não adianta, melhor não tentar; sinceramente, é patético. Eu nem queria mesmo entrar. Que raiva. Mas dessa vez… Dessa vez eu fui convidada.
Pelo menos eu acho que eu fui. Eu tenho quase certeza. Faz bastante tempo – e eu só resolvi vir agora, falta de educação, de fato – faz bastante tempo mas eu lembro muito bem. Se não foi um convite, o que é que foi aquilo? E como fazia tempo, achei que tinha expirado o convite. Por isso eu fiquei procurando o sinal. Tenho um convite e tenho um sinal; pronto, problemas resolvidos… não?
Me vem à mente a minha própria casa. Como gosto dela, como a transformei: era só escombros, agora é um lugar habitável. Quando fico longe por muito tempo, sinto falta dela, preciso dela, e sei que ela sente minha falta e precisa de mim. Fico impaciente e me pergunto: por quanto tempo vou ficar nessa porta? Se eu entrar, por quanto tempo vou ficar lá dentro? Mas não, esse ainda não é o grande problema, afinal de contas eu sei o caminho de volta, tenho força de vontade e dinheiro pra táxi, volto quando quiser.
O problema é que, se tudo der certo, terei uma visita batendo na minha porta, seja amanhã ou na semana que vem.
Veja bem, minha casa é habitável. Se é realmente agradável e divertida para visitas eu já não sei. Pelo jeito que as coisas andam – convites, sinais, tudo mais – é provável que eu saia daqui hoje com… uma paranóia.
É provável que eu volte pra casa e fique desesperadamente tentando mudar os móveis de lugar, que vire a noite tentando limpar e desinfetar cada canto. Não vai demorar muito para que eu ache que todos os quadros que estão pendurados têm um quê de kitsch, que todos os discos que tenho são monótonos ou cacofônicos demais, que a louça é muito barata. Até que eu comece a reparar na estrutura arquitetônica pouco perfeita, na má localização, e coloque na minha cabeça que preciso me mudar. Que preciso trabalhar muito, juntar dinheiro, ficar milionária, comprar uma casa nos Jardins… E de preferência ter dois tipos de video-game (que eu nem sei jogar, mas as visitas gostam), home theater com projetor, uma piscina – e alguém pra limpar a piscina!, e alguém pra limpar o home theater!, e os video-games!…
Que vontade de sair correndo daqui. Eu sei que eu seria como aquelas criancinhas no Halloween que tocam a campainha e saem correndo quando não dão doces pra elas. Exceto que eu não toquei a campainha, eu dei três batidas. E que não estaria me vingando de nada. E que não seria só por prazer, seria por medo mesmo.
Ainda dá tempo de sair correndo, ainda dá tempo…

Co-var-de.

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A mesma

Ele ainda é o cara mais charmoso que já vi na vida. Ainda fico feliz quando ele diz meu nome, olha para mim, me dá qualquer tipo de atenção.
Ele (outro) ainda é um desconhecido cujo interesse gentil me assusta. Continuo sem saber seu nome, sem saber se quero saber seu nome — continuo podendo lhe dar o nome que eu quiser.
Ele (mais outro) se mantém por perto, permanecendo longe: conversamos horas sobre nada que realmente nos importe. Como sempre. Seus dentes ainda são pequenos e perfeitos, como os de uma criança.

Eu mudo e mudo. Finjo que mudo. Penso que mudo.
Supero, procuro o novo, mudo de assunto.
E no entanto poderia falar horas sobre qualquer um deles, o quanto continuo apaixonada — o quanto sou apaixonada por eles.
Que curioso, que patético: sobre as outras coisas me recuso a dizer que sou. Digo que tenho fases, que o destino me reinventa, que a vida me relativiza, que sou outra a todo instante. E no entanto, por eles eu digo: SOU. Sou apaixonada, sempre serei. Sempre fui.

E pra mim tudo que é dói. Dizem que mudanças dóem, que devemos encará-las com força e fé, por serem tão difíceis e desafiadoras – pra mim é o inverso.
Poderia mudar todos os dias: de país, de cabelo, de amigos, de família, de estilo, de alimentação. Viveria minha vida a perseguir mudanças, muito alegre.
Nada é mais terrível para mim do que ir dormir à noite, acordar no dia seguinte e perceber que algo não mudou. Perceber que meu coração parou num lugar, num tempo – ficou ali, simplesmente, e como uma fotografia, estabeleceu uma forma fixa.
Nada é mais terrível do que olhar um certo rosto, dia após dia, e ver as mesmas coisas. (Claro que são belas, são coisas muito muito belas.) E sentir que elas fazem o mesmo caminho, das retinas até o estômago e depois aos ouvidos e a garganta — o enjôo, a tontura, o nó. Uma coreografia de sensações.

Enfrentar: não funciona.
Seduzir: não funciona.
Agredir: não funciona.
Abandonar: não funciona.
Aceitar: também não funciona, porra.
Certas coisas resistem.

Me pergunto muitas vezes quem inventou essa tradição de dar nomes aos seres humanos. Fico achando que seríamos mais livres se não tivéssemos nomes. Não só mais livres, seríamos outra coisa. Tudo seria diferente.
Se realmente só tenho uma vida, só tenho um nome. Nasci com ele, morrerei com ele. Só um corpo também. Me revolta. Custo a aceitar que existo, que sou. Gostaria de explodir.

Toda vez que vejo cada um desses homens, me lembro que há pedaços de mim que formam algo que tem o nome Anita. Que justamente as partes das quais mais tento fugir são as que me compõem como ser.
E que eles também são. Fico um dia, um mês ou um ano sem vê-los e, quando vejo, é possível achar em seus traços, vozes e gestos os mesmos elementos – e através deles volto imediatamente no tempo.

Ando, ando e ando, seguindo adiante.
Mas desde outubro aquele charme que me prende.
Desde março a gentileza que me desestabiliza.
Desde fevereiro os assuntos desimportantes que me inquietam.
Vou voltando, voltando, voltando.
Qual era mesmo a diferença entre andar pra frente e andar pra trás?

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My heart

My heart has been looking for a pair of arms like my soul has been looking for a pair of eyes to match the wintery skies when the clouds begin to fade away.

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